Cada ser humano que vem ao mundo recebe um corpo, uma alma, uma vida. Ao nascer, nasce de outros, ganha um nome, entra numa língua que já existe, ocupa uma posição numa genealogia e encontra um mundo que o precede. Além disso, no início de sua existência, depende radicalmente de outros seres humanos para se desenvolver como pessoa.
A condição humana não pode ser adequadamente compreendida a partir da ideia de um ser humano originariamente autor de si mesmo, autossuficiente e autônomo.
Não somos a origem de nós mesmos: mesmo antes de podermos escolher, já fomos colocados no ser; antes de podermos falar, já fomos introduzidos numa língua; antes de podermos construir nossa própria história, já pertencemos a uma história que nos antecede.
Nesse sentido, podemos compreender a vida humana como uma existência recebida, sem que isso implique que nossa vida seja inteiramente determinada por aquilo que recebemos.
Embora sejamos verdadeiramente indivíduos únicos, não somos uma realidade humana absolutamente independente de Deus, dos nossos progenitores, dos nossos semelhantes e do nosso mundo. A constituição da pessoa é inseparável de uma rede de relações de dependência e pertença que a antecede e na qual sua vida se desenvolve.
Podemos afirmar, portanto, que não escolhemos existir: o fato de sermos é anterior a qualquer decisão nossa. Antes de podermos dizer “eu quero”, já somos. Nossa existência não começou como uma obra de nossa própria autoria.
E agora, o que vamos fazer com essa vida que nos foi dada?
No exercício da nossa liberdade, podemos acolher, transformar, reinterpretar ou mesmo contestar aquilo que recebemos. Não escolhemos o ponto de partida, mas podemos responder livremente a ele e participar da direção que nossa vida toma.
Mas o fato incontestável é que, qualquer que seja a resposta que possamos dar à existência que recebemos, não poderemos eliminar a condição originária de a termos recebido.
“E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou”. [Gn. 1:27]


